segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Descendentes da família Lundgren negam ligação com o nazismo

Passados 66 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, são quase inevitáveis as referências à família Lundgren, uma das mais poderosas do Brasil no século XX, sem que alguém lembre a proximidade dela com os alemães e, em alguns casos, façam referências a uma suposta ligação do clã com o nazismo. Uma pecha combatida sem trégua pelos descendentes, mas que ganhou força, recentemente, com a abertura dos arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops). As referências, é fácil imaginar o porquê, são odiadas pela família. 
“Os Lundgren não são, nunca foram e nunca serão simpáticos ao nazismo”, garantem dois representantes da terceira geração da família de origem sueca e dinamarquesa, radicada no Brasil, Nilson Nogueira Lundgren, 74, e Albenita Lundgren Illi, 73. O objetivo deles é pôr fim a uma acusação que se arrastou ao longo de praticamente todo o século passado e que ganhou fôlego em referências feitas através de prontuários e fotos arquivadas pelo Dops.
Os documentos, fruto da espionagem feita pelo temido serviço secreto brasileiro durante a Era Vargas (1930-1945), trazem relatos sobre reuniões do Partido Nazista em Pernambuco a partir de 1932 e que ocorreram com regularidade até 1938. O roteiro de encontros, segundo o Dops, incluía as instalações da Companhia de Tecidos Paulista e a própria casa grande, pertencentes à família. Uma informação negada veementemente pelos Lundgren.
“Olhei as fotografias. Desafio qualquer um a percorrer todos os cômodos dessa casa e provar que aqui existe esse piso”, disse de forma enfática Nilson Lundgren, apontando para reportagem publicada no Diario de Pernambuco, no dia 10 de julho, ilustrada com a foto de uma reunião do Partido Nazista, que teria ocorrido na casa grande, residência oficial da família. Uma informação tratada como errônea pela família.

O envolvimento com o nazismo é contestado pelos Lundgren, que se referem à relação com os alemães apenas como o trato entre empregadores e empregados. A informação, inclusive, conta com uma concordância do diretor do Arquivo Público do estado, Paulo Moura. Ele assegura, no entanto, com base nos arquivos do Dops, que apesar de não haver registros sobre a participação da família nas reuniões, elas corriam, sim, em Paulista.

Os prontuários do Dops, pontua Moura, revelam que a fotografia da reunião do Partido Nazista, publicada pelo Diario, teria sido feita no escritório da Fábrica de Tecidos Paulista. Uma informação contestada por Nilson Lundgren. “Não conheço, mas arriscaria dizer que essa foto foi feita no consulado alemão. Não temos esse piso por aqui”, enfatizou, sem fazer referência à arquitetura germânica também presente no casarão.

Na verdade, a relação dos Lundgren com os alemães é bastante antiga e remonta à chegada do patriarca da família, Herman Theodor Lundgren, ao Recife, em 1852. Fluente em quatro idiomas (sueco, inglês e alemão) e já dominando o português, ele logo tornou-se cônsul dos países nórdicos em Pernambuco. Daí, fundou um Ship Chandlers (abastecedora de navios) e, com isso, deu início à construção do império da família no Brasil.
Um sucesso que teve seu maior impulso com a construção de uma fábrica de pólvora, ainda no século XIX, a primeira da América Latina e que surgiu da sociedade com um alemão. De terras germânicas vieram o maquinário e o conhecimento técnico para o projeto. “A Alemanha era a maior potência do mundo. Tudo o que era maquinário vinha de lá”, lembrou Nilson Lundgren, ao falar da Pernambuco Powder Factory.
A afinidade com os alemães não acabou por aí. Com a morte de Herman, em 1907, Frederico João Lundgren assumiu os negócios da família e deu início, em 1908, ao plano para criar, a partir de Pernambuco, o maior grupo fabril da América Latina. E tudo começou com a compra da Companhia de Tecidos Paulista, na cidade que deu nome à fábrica. O plano, para sair do papel, exigia três coisas: dinheiro, maquinário e mão de obra altamente especializada.
O dinheiro para financiar o projeto veio do Bank of London and South America. Já o maquinário e a mão de obra vieram da Alemanha. Eram engenheiros, mecânicos, operadores de caldeira, etc. Eles montaram as máquinas, construíram as fábricas de Paulista, em Pernambuco, e Rio Tinto, na Paraíba. Depois ficaram para manter a operação. Uma imigração incrementada após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra, que deixou a economia do país destruída.
O número de alemães trabalhando na fábrica era pequeno dentro do universo de 30 mil operários das duas unidades fabris. Girava em torno de 100, todos em funções técnicas. Eles, inclusive, tinham participação ativa na sociedade. Os cargos de direção ficavam com os ingleses. O presidente da companhia, após a sua fundação, era inglês. “Era mister Donald Valentine”, lembra Nilson. Havia também cerca de 100 britânicos na empresa. Apesar da paridade entre alemães e britânicos nas fábricas, por causa do nazismo e da entrada do Brasil na Segunda Guerra, a presença alemã passou a ser vista com desconfiança. E sua imagem ligada aos Lundgren. Inclusive com muita carga negativa. “Ainda hoje somos abordados por pessoas que nos dizem: ‘Ah! Você é Lundgren. Sua família é alemã?’ Aí digo: de alemã eu não tenho nada. A origem da minha família é de suecos e dinamarqueses. Falo alemão porque meu marido é suíço. Só isso”, enfatizou Albenita Lundgren.

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